30 de novembro de 2016

Bionic Fashion: I am Titanium...



Recentemente foi-me diagnosticada uma calcificação nos ossos mais pequenos do corpo humano, situados nos ouvidos, designados por estribos, dado a semelhança com os acessórios para montar. Aparentemente, o estribo é um osso móvel que existe em cada ouvido para transportar as vibrações e os meus, por questões hereditárias, ao que me foi explicado, estão a ficar imóveis, pelo que já não permitem que ouça frequências mais baixas, como o bebé dos meus vizinhos de cima que, quando chora, é ouvido por todos, menos por mim (o que, convenhamos, não é necessariamente mau). Aprendi que a idade, e algumas doenças que, infelizmente, não escolhem idade, nos vão trazendo várias provações que nos levam a ter de reajustar as rotinas e as expectativas. Tenho como guia que apenas a falta de memória nos rouba a identidade, tudo resto é um puzzle em que, enquanto é permitido e aconselhado, se vão substituindo as peças, mas que estes sucedâneos artificiais não nos roubam o ser, nem nos definem! No caso da audição, a médio prazo, terei de comprar duas próteses ou substituir os meus estribos por uns de plástico (imprimidos, seguramente, numa qualquer impressora 3D) ou de titânio, opção que considero mais apetecível para poder ouvir a canção Bulletproof, da La Roux, e achar que foi criada a pensar em mim! (I am titanium…)
Como qualquer cidadão informado que se preze vim para casa googlar, não a otosclerose que me atribuíram, algo sobre um ossículo minúsculo e maçador, mas as próteses de plástico e titânio existentes no mercado e percebi que os estribos com melhor performance são os alemães (Deutsche Technologie para os ouvidos). Depois fiquei a pensar que seria melhor ser mulher biónica com alguma classe, que é algo que a idade precisa para distrair e disfarçar as imperfeições, e lembrei-me que o que queria mesmo era ter uns estribos em titânio da Hermès: sempre seria massa atómica made in France, por especialistas em moda equestre! E que bom seria se as próteses de pés pudessem ser desenhadas com a ajuda do Manolo Blahnik, ou do Christian Laboutin, que houvesse próteses Prada (em termos de marking a aliteração resultaria muito bem), implantes Michael Kors, Louis Vuitton, Armani, Burberry, Chanel, Marc Jacobs, Harry Winston, Tiffany ou Bulgary...
Por último, referir a suprema ironia da otosclerose (eufemismo para surdez) me forçar a aproximar mais de algo que toda a minha vida adulta me interessou e até estudo: O silêncio!

23 de março de 2016

How did it feel?

How did it feel to leave the house, Tuesday morning, knowing you were going to be driven by a taxi, you so diligently rang for, to your death and to the unpredictable slaughter of a number of anonymous people?

Did you go to bed the night before? Did you set the alarm clock for a certain hour to get on time to yours and many others’ meeting with death?

How did it feel when you set the bomb, when you pressed the button, when you set the pace for stop being? Did you feel omnipotent, with a dash of nostalgia for leaving life undone, or did you just focus on the task of death ahead, instead?

How did it feel when you looked your fellow comrades in the eyes? Did you wave a silent goodbye before shouting the death prayer? Did you get the chance to browse around to check out your victims at the check in counter? Did you get to choose the best spot, to take the largest crowd you could?

In death you never know, you don’t want to know, except you did know and I keep wondering, in spite of faith, religion, revengeful thoughts, and beliefs, how did it feel to leave the house to die and kill, yesterday morning?

12 de julho de 2012

Delírio de meia-idade


Amanhã é o meu aniversário! Estou oficialmente à meia-idade! Não vale a pena dizer que os quarenta, quarenta e picos, são os novos 30s e os 30s são os novos 20s, pois a única coisa que ainda não conseguimos driblar é algo que parece um dado adquirido mas que tem uma poesia intrínseca maravilhosa – a “esperança de vida”. Ora a esperança de vida média, para as mulheres, em Portugal, é de 82,2 anos (dados de 2011) o que quer dizer que, de acordo com as estatísticas, estou na meia-idade. Por isso lembrei-me de fazer, em canal aberto, o balanço de meia vida.
Uma personagem de Beckett no À Espera de Godot diz uma frase espantosa, pela sua simplicidade, How time flies when one is having fun, que traduz aquilo que sinto em relação à vida que os meus pais me deram e à viagem que comecei, na segunda-feira, dia 13 de Julho de 1970,às 8h05 da manhã. O que nos confere identidade é a memória e é graças ao poder de recordar que consigo elaborar este balanço. A memória é sempre mais permanente quando os acontecimentos são especialmente marcantes, positiva ou negativamente. Hoje, porque é dia de festa, celebro as coisas boas que a vida me trouxe:
·         Uns pais extraordinários que me deram asas para persistir e nunca desistir (acreditem que não é teimosia, nem obstinação, é mesmo persistência) e uma formação católica mais ou menos praticante, que me tem acompanhado pela vida, em todos os momentos;
·         Um marido fantástico com quem viajo no amor há 22 anos, umas vezes de avião, outras de carro, de comboio, de mota, de bicicleta ou a pé, umas vezes depressa, outras devagar, mas sempre em segurança;
·         Umas filhas muito procuradas que me entraram pela vida adentro, de rompante, quando menos esperava, e que me alteraram as entranhas (e claro que não falo apenas do pneu à volta da barriga nem da cicatriz das cesarianas…);
·         Uma família próxima que me deu raízes em vários pontos de Portugal e, depois, por afinidade, em vários pontos da Europa; Hoje lembro com saudade os meus avós que sempre se lembravam do meu dia de nascimento e do meu primo, com quem trocava mimos de aniversário e brindava com gin!
·         Uns amigos -ia escrever verdadeiros, mas lembrei-me que só há amizade com verdade- em quantidade acima da média das estatísticas, com quem partilho e celebro muitos momentos importantes. Eles são a família adotada e confesso que são tantos e tão bons (muitos com filhos que se tornaram “sobrinhos” e até afilhados) que, às vezes, penso que a quota da amizade está preenchida, pois é difícil encontrar momentos para estar com todos! Tenho comigo amigos desde bebé, amigos da escola, amigos da universidade, amigos de trabalho e amigos de amigos, que amigos se tornaram… Alguns estão espalhados pelo mundo e as redes sociais ajudam-nos a não perdermos o rasto e o contacto (e dito isto, lembro-me que muitos amigos não falam português e que, provavelmente, para este delírio de meia-idade chegar a todos eles, ainda terei de fazer uma tradução para Espanhol e para Inglês);
·         Um trabalho que me ensinou a reformular conhecimentos, a perceber que quanto mais avançamos maiores são as dúvidas e a responsabilidade e maior tem de ser a humildade para aprender de novo a conhecer e a fazer. Celebro ter tido a sorte de me cruzar com professores/mestres,  colegas e alunos que me ensinaram a questionar, investigar, reformular paradigmas e a aceitar que não podemos travar todas as batalhas mas podemos escolher as “guerras de ideias” em que queremos entrar e de que lado vamos estar.
Enfim, são 41 anos de vida que se completam, com amor, humor, junto de todos os que quero e me querem bem, em todas as disposições e em todas as estações do ano.
Ergo o meu copo “virtual” à saúde de todos os que passaram na minha vida, aos presentes e aos ausentes; cada um constitui uma tatuagem de identidade na minha memória!
Com a viagem a meio, deposito uma enorme esperança de vida na meia-idade que a estatística me diz que ainda tenho, pois sei que o futuro está cheio de sonhos por acontecer!

8 de março de 2012

Quando crescer não vou fazer nada!

Há dias em que queria escrever um livro que não falasse de literatura, para o qual não tivesse de estudar tantos outros livros para desenvolver uma opinião fundamentada, convocando diferentes perspectivas. Mas a profissão de investigador não se compadece desses devaneios. Querendo falar dos temas latos que me são queridos -  silêncio, memória e identidade –  nunca o posso fazer sem invocar posicionamentos alheios que consubstanciam a  “minha” abordagem. Minha entre aspas, pois nada é verdadeiramente meu, no sentido de descoberta. Uso o pronome/demonstrativo possessivo (dependendo da frase em que se integra), apenas enquanto detentora de uma informação que até então não tinha partilhado…
Falamos de um livro, filme, até de um local geográfico, quase sempre tentando recordar as similitudes com outros livros, outros filmes, outros locais… Na investigação fazemos o mesmo: Aproximamos ou distanciamos temáticas, autores, para tornar perceptível um ponto de vista – que é nosso mas que corresponde à súmula de tantos debates, como numa equação complicada em que o resultado é sempre infinito. Em dias mais incertos, embarco em devaneios onde concluo que devia ter dedicado a vida de investigadora à Matemática; Há qualquer coisa na palavra ciências exactas que hoje me fascina, mais do que em adolescente. A ideia de pensar uma equação abstracta até a tornar real e plausível é muito poética, aos meus olhos de toldados por anos a porfiar com a língua, a literatura e a cultura.
Os dias que atravesso estão recheados de aulas para preparar, de alunos para cativar, de matéria nova para eles e não tão nova para mim, mas ainda assim sempre capaz de uma nova surpresa. Hoje acredito que uma pessoa podia viver só com a obra completa de um grande autor, de preferência canónico, e ser capaz de a estudar pela sua vida fora, encontrando novas perplexidades e desafios a cada (re)leitura. O poder das grandes obras é esse: os textos de Shakespeare, Pessoa, Tolstoi, Beckett, Joyce, Whitman, Eliot e tantos outros, permanecem intactos quase imutáveis (nem sempre, mas este não será o momento de iniciar uma deambulação sobre os folios de Shakespeare, ou da organização do baú de Pessoa) enquanto os estudiosos, de acordo com a perspectiva sincrónica ou diacrónica, vão prestando atenção às teorias enunciadas na estética da recepção e a tantos outros postulados imprescindíveis ao estudo da literatura e vão escrevendo milhões de palavras acerca de um único texto. Fernando Pessoa, a dado momento da sua vida, afirmou que estava cansado das palavras dos outros e que, daí em diante, só iria ler as suas. Puro egotismo? Talvez, mas tinha razões de sobra para assim proceder: Afinal, com tantos heterónimos nunca se sentiria só, nem preso ao mesmo sujeito poético!
Leio no Guardian que o Jonathan Franzen (romancista americano) se insurgiu contra o twitter, depois de já ter igualmente condenado, em ocasiões anteriores, os ebooks e o facebook. Discordo desta visão! Acho que a literatura pode descobrir uma postura inovadora se usar a tecnologia para lançar novos desafios. Resumir uma grande obra (livro, quadro, escultura) num tweet é um estímulo tão inovador e motivante quanto resolver um teorema complicado. Quase tão divertido como ver no YouTube a versão do Rowan Atkinson e do Hugh Laurie das emendas ao mais conhecido solilóquio do Hamlet! É demasiado simples ou provocatório? Não, é um exercício de economia de palavras, num tempo em que já não temos palavras interditas e que a verborreia tende a afogar a maior parte dos pensamentos e dos silêncios. 
Quando me perguntam o que faço, gostava de ousar dizer que penso e que isso, segundo a matriz cartesiana, deveria chegar para viver. Nunca chega! É sempre necessário acrescentar actividades com desempenhos relevantes pois o pensamento, só por si, fica desacompanhado, desguarnecido de substância e facilmente se confunde com a preguiça de não querer fazer nada! Já nada somos, em termos de investigação, se não tivermos a identidade de um ISBN, o reconhecimento de um referee ou outros trabalhos pertinentes na nossa área de especialização.
Há dias que também eu queria ser uma guardadora de ovelhas, mas falta-me a heteronímia, o engenho ou, à falta de ambos, a bipolaridade, ou a esquizofrenia!

1 de dezembro de 2011

Natal, Memória e Identidade

É Natal! Com menos presentes, menos enfeites de Natal nas ruas, menos sorrisos, mais antevisões de um ano de permanente Quaresma e poucos adventos mas, ainda assim, o Natal está aí!
Hoje, dia em que os portugueses celebram a restauração da sua independência dos espanhóis, penso que outra dependência mais grave nos assola, a perpétua escravidão dos mercados, da economia e do dinheiro. Mas afirmar que não é Natal, pois não há dinheiro, é como contrariar tudo o que devemos dizer enquanto cristãos ou, para os que não o são, enquanto educadores sensatos: O Natal  é o reviver da nossa natividade, o renascer da capacidade de nos amarmos um pouco mais, para podermos assim amar mais os outros. Lembro-me sempre do Conto de Natal, do Charles Dickens, como a perspectiva pedagógica e correcta sobre o que o Natal deve despertar em cada um. Também sei que o Natal é quando um homem ou uma mulher quiserem mas andamos tão ocupados, com tantos afazeres, que facilita ter dias programados na agenda! Hoje, primeiro de Dezembro, a nossa família de quatro católicos -1 portuguesa e 3 portugueses e espanhóis – trouxe o Natal para dentro de casa!
Confesso que a ideia de ir buscar os enfeites, a árvore, as luzes me deixa exausta, mesmo antes de começar. Cheguei a pensar em seguir o exemplo do fado e ter enfeites imateriais… Mas depois de uma noite de sono tranquilo (e um pequeno-almoço de panquecas) atrevi-me a ir com a Catarina à arrecadação libertar o Natal!
Veio tudo e decidimos os enfeites a colocar, no momento da montagem. Optámos por uma decoração com muitas bolas do Jack, do Tim Burton, um clássico muito apreciado aqui em casa. No entanto, ano após ano, há decorações obrigatórias: O Presépio, oferecido pela minha mãe, que ocupa um lugar de destaque na nossa sala; o Menino Jesus que era do meu avô, que encontrei por acaso, quando o ano passado fui buscar uns móveis antes da casa ser vendida; a bola que a Catarina fez com 3 anos; o coração e a estrela que a Pilar fez com 5 anos; a caixa brilhante que a tia Rolinha nos ofereceu; o tubarão que estava na árvore do tio Vic e da tia Vitória, no primeiro Natal que as crianças lá foram a casa… e tantas outras peças insignificantes, algumas mesmo extemporâneas, mas que nos acordam para o espírito do Natal.
Aqui em casa gostamos do Natal, vivemos o advento, gostamos do ritual de acender as velas, gostamos de ir à missa do Galo e acreditar que o Menino Jesus nasceu, mas, mesmo para quem não acredita na tradição católica, o Natal é o tempo em que a identidade e a memória devem estar presentes em cada um de nós. Este ano tenho um cérebro cheio memórias de Natais passados que me devolvem a identidade e me vinculam aos afectos que contribuíram para que chegasse aqui, hoje, à celebração do meu 41º Natal! 
A família vai mudando, uns partem, outros chegam, mas tudo isso faz parte do Natal vivo, em permanente mutação. E, enquanto tivermos memória, aqueles que partiram continuam para sempre connosco e aqueles que chegam passam a estar gravados na nossa história e tornam-se parte da nossa identidade.
A Pilar este ano ficou responsável pelas frases do advento (temos um calendário, onde todos os dias está escrita uma tarefa que se enquadre na época). Para hoje, o calendário sugeria que escrevêssemos uma frase para colocar na árvore. Já lá estão duas:
“Gosto do Natal!”
“Gosto do Menino Jesus!”

18 de novembro de 2011

Nota a propósito do vídeo sobre a suposta ignorância de recém-chegados à universidade


Desconfio que houve claramente manipulação e vindo da revista Sábado, cujos temas e seriedade têm vindo a decair, não me espanta! A reportagem light é fruto do jornalismo que têm optado por praticar, num país onde assistir aos erros alheios (seja na casa dos segredos, ou no Youtube) é mais importante do que saber a resposta correcta.
Há quantos lados e quantos miúdos quisermos, mas a nossa geração e a dos pais deles é que está em causa! Nem tudo se aprende na escola. Aliás, a maior parte das coisas realmente fascinantes não se aprende numa sala de aula, com professores desesperados e mais de duas dezenas de alunos ensonados e prontos para o disparate, pois ficaram acordados a ver coisas impróprias para a sua idade e maturidade.As minhas filhas antes de irem à Disney foram ver a Mona Lisa. Se um dia disserem um disparate destes têm mais culpa que miúdos de 18 anos que cresceram sem livros, rodeados de novelas e de porcarias para adormecerem a curiosidade e não chatearem os pais ao fim de um dia difícil de trabalho.Declararem numa reportagem que os universitários são ignorantes é uma condenação a toda uma geração de educadores. E os grandes e primeiros educadores têm de ser os "encarregados de educação". Ou acham que é só um nome que se dá a quem assina os testes?
O país está em crise, estão a revogar direitos que levaram décadas a serem instituídos? O que é que isso importa face às alarvidades que um bando de desocupados dizem, numa casa fabricada de imagens e disparates?
O ópio do povo é o entorpecimento das imagens e das palavras esvaziadas de conteúdo! Quem tem dinheiro e cartões dourados são os futebolistas, os miúdos das novelas e das bandas pimba (que têm muita bola para jogar, muito texto para decorar e que também não têm tempo para a cultura) e os ladrões de colarinho branco... Espanta-me que a suposta ignorância de universitários (todos eles apenas o são há 3 meses) se sobreponha ao estado da nação, ao facto de termos ex-políticos a serem ouvidos por suspeita de participação em crimes de fraude, de homicídio... Espanta-me que a suposta ignorância de universitários se sobreponha ao facto de estarmos a perder qualidade de vida à velocidade que obesos mórbidos perdem peso, para o povo ver, numa quinta no meio do nada! O melhor mesmo seria alugar o país inteiro a um canal de televisão e fazer um "big reality show" patrocinado por uma farmacêutica de anti-depressivos: "Como é que este povo que descobriu novos mundos, andou à tareia com os vizinhos peninsulares, com os mouros e com os irmãos, se tornou tão adormecido?"

2 de setembro de 2011

Let the winds of folly blow!

Setembro começa com chuva... Agosto terminou com chuva... Os dias que se avizinham prometem chuva... Achava que a passividade recente dos portugueses (sim, pois há menos de 100 anos andávamos metidos em lutas fratricidas por tudo e mais alguma coisa) estava directamente relacionada com o clima... Bom tempo, falsa crença numa economia estável, bom feitio dos cidadãos... Entretanto, foi-se a economia afável, até o bom tempo se está a dissipar e o bom feitio cá continua... Os gregos têm bom tempo e mau feitio por isso, aparentemente, não há relação entre o clima e o optimismo, quando toca a troikas e crises... Somos um exemplo paradigmático de capacidade de aceitação de provações, elogiado além fronteiras e para lá do atlântico. O PM nada teme em relação a motins e até escolhe a zona não concessionada da praia da Manta Rota para instalar o chapéu de sol (o seu e o dos seguranças que pouco fazem, pois o povo é complacente com os seus semelhantes). Até quando? Estamos a viver o espírito dos navegadores, enfrentando corajosamente todas as tormentas, mas o Inverno vai chegar e não sei se as tormentas se converterão em boa esperança a curto trecho! Pelo sim pelo não é melhor ir começando a limpar as armas, enquanto há tempo, a sorrir enquanto há vontade e a ir à praia enquanto há sol!

11 de abril de 2011

O quarto "eFe"

A partir de amanhã o país dos 3 eFes (Fado, Futebol e Fátima) passa a ter mais um: o FMI! Claro que a importância do eFe de Futebol será o verdadeiro garante do Fundo de Estabilidade Mental do povo! E como "não há duas sem 3" enquadra-se esta vinda como parte do fado e pede-se ajuda a Nª Srª de Fátima para os tempos que se avizinham porque afinal "tudo isto existe, tudo isto é triste, tudo isto é fado!" (E como o FMI chega com o sol, esqueçamos o raio do IVA e pensemos nos raios UV que, à semelhança da dívida, estão altos mas dão trabalho ao bronze!)

17 de fevereiro de 2011

O bilhete da liberdade na saúde e na doença

Hoje é tudo mais limpo e mais distanciado… Os hospitais têm parques de estacionamento de superfície e subterrâneos, já não há nervos para encontrar lugar cá fora, deixar o carro semi‑pendurado numa árvore, ter de ir de táxi ou de autocarro, aumentando a angústia do momento da consulta externa, ou da visita… Hoje chegamos e partimos como quem paga um bilhete de estacionamento que se guarda em sítio seguro, pois é o garante que vamos por pouco tempo…Hoje os hospitais são centros comerciais de doença, públicos ou privados e patrocinados por bancos que ditam a cor das instalações.
Quem vai por mais tempo tem de fazer os preparativos inerentes à viagem pela doença - Faz a mala, deixa o carro e pede uma boleia ou chama um táxi e, em casos mais difíceis, deixa a casa limpa e os papéis em ordem… Dizia-me a minha avó materna que sabemos sempre quando saímos de casa mas nunca sabemos quando vamos regressar! Dizia-o numa tentativa de estimular que deixássemos a casa arrumada para não “parecer mal” se tivéssemos de entrar com visitas inesperadas mas, num sentido mais profundo, tinha muita razão, a avó Isabel, e muitas vezes me lembro das suas palavras!
Ultimamente, por força da vida e das doenças, tenho visitado hospitais, clínicas, centros de saúde e instituições médicas em geral… Desde o final de Dezembro tenho tomado contacto com inúmeras realidades: O Hospital-hotel; o Hospital-público; o centro de saúde do bairro; a clínica de radiologia… Tenho ido nas diversas qualidades: visita, doente, acompanhante. Porém, o único denominador comum é que posso sempre levar o carro, posso sempre sair passado algum tempo e essa liberdade da saída marca a fronteira entre a saúde e a doença…
Ter alta é uma coisa maravilhosa, poder passar os portões de um hospital e deixá-lo para trás, ainda que seja por umas horas ou um dia, é sempre um momento de libertação! Quando fui mãe o momento que mais me comoveu não foi o dia do nascimento das minhas filhas, foi o dia em que mas deixaram levar para casa… Lembro-me de subir muitas escadas chorando em silêncio, de alegria. Os hospitais, independentemente de terem melhores ou piores condições são espaços de limite, de grande dor, mas também de grande alegria: a dor da perda, do desengano, do desconsolo de ter chegado ao fim das soluções e a cura não aparecer, a alegria de ter enganado a doença, de ter adormecido o mal, de ter vencido a morte, ou de ter uma nova vida nas mãos!
Passo os portões à entrada nos hospitais e sinto que vou de encontro a edifícios cheios de desilusão e esperança e cada vez que o faço esforço-me por não pensar muito nisso, para não ser piegas, porque a saúde e a doença necessitam de optimismo e sentido de humor para não serem tão pesadas!
Às vezes penso que muito do heroísmo dos médicos advém da conquista diária de deixarem o hospital e recuperarem a liberdade. Nestes últimos dias tenho respirado fundo, num prazer egoísta, antes de passar os portões à saída, depois da hora da visita,  e nesses instantes o bilhete do parque transforma-se num passaporte para um mundo cheio de oportunidades!

25 de janeiro de 2011

Faz de Conta

O corte no ordenado... Já sabia há muito que ia ser menor, que ia ser um bocado grande mais pequeno (perdoem-me a contradição). Sempre que se trata de dinheiro, provavelmente por resquícios de uma infância em que a Matemática sempre fez sentido quando convertida em dados concretos - tens 10 chocolates e 3 amigos, o que fazes? - tenho tendência a converter o dinheiro no se poderia ter feito ou, neste caso, o que não vou fazer. Só quem não tem muito dinheiro consegue concretizar tão bem... Por isso é que os meus sonhos utópicos (porque não jogo) de ganhar o Euromilhões ficam sempre inacabados.., para o primeiro prémio. Será sempre mais fácil ganhar o 2º ou o 3º, ou mesmo o 4º prémio pois muito dinheiro acarreta responsabilidades pessoais e sociais maiores. Com muito dinheiro já não se ajuda somente a família e os amigos, existe a obrigação de ir mais longe e deve dar um trabalho dos diabos escolher uma causa boa, justa, livre e limpa!

Voltando ao ordenado: É menor, é como uma multa de excesso de velocidade que nos deixa a pensar: se eu tivesse passado mais devagar estaria agora 120 euros mais rica e até podia ter comprado aquele papel de parede extravagante com que ia forrar o WC! O problema é que, desta vez, recebo um corte salarial não por ter passado em excesso de velocidade, mas porque há muito que o país anda em excesso de despesa e optou pela via rápida de reduzir punindo os alvos mais a jeito: o belo funcionário público que no fim da conversa ainda remata: "ainda vamos tendo emprego é o que conta!" Pois para mim não conta!

Passei os últimos 18 anos a leccionar e a investigar, a apresentar as provas que me foram sendo solicitadas. Nunca subi na carreira docente por ter anos de serviço, mas por provas dadas. Aliás, ao contrário da maior parte dos funcionários públicos, eu e tantos outros como eu, continuamos sem ter o cargo assegurado - ainda este ano será, mais uma vez, reavaliada a minha relevância, após apreciação de um relatório de nomeação que talvez me vincule, não ao estado, à universidade onde trabalho há 18 anos, com excesso de horas lectivas, de alunos e de outros encargos burocráticos e com a pressão de ter de investigar e publicar pois tudo conta!

O corte no meu ordenado é dizerem-me "vá directamente para a prisão, sem passar pela casa partida!"

O corte no meu ordenado é uma forma de me dizerem que os 6 anos que investi no doutoramento me deram apenas 1 título, que agora se consegue em metade do tempo! Não tenho grandes hipóteses de progredir uma vez que as vagas são cada vez menores, pois o império das cotas impede a criação de novos concursos...

Fui uma aluna Erasmus, fiz uma licenciatura, um mestrado e um doutoramento pré-Bolonha e tudo isso me trouxe aos dias de hoje... ao corte orçamental que sofri. O que é que eu penso hoje, quando vejo o meu salário e o converto não em chocolates, mas em portagens, gasóleo e contas de casa de um agregado de 4 pessoas (dois adultos e duas crianças, em idade escolar)?

- Faz de conta que não fiz o doutoramento e que ainda sou assistente!

- Faz de conta que não tenho 156 alunos, múltiplas disciplinas diferentes anualmente, de primeiro e segundos ciclos e artigos para escrever, grupos de trabalho com projectos para apresentar, avaliações a que serei submetida...

- Faz de conta que está tudo bem!

Já não preciso de esperança, já só quero o sonho e talvez o esquecimento! Isso ou o 2º prémio do Euromilhões!

29 de outubro de 2010

Paul Auster, Velhos e o IKEA

Vai-me custar escrever este post, mas tem mesmo de ser, se eu não expulsar estas palavras da minha cabeça, vão continuar a assombrar-me de uma forma ainda mais permanente...
Tenho um trabalho, para o bem e para o mal, que tanto me obriga a levantar às 5h30 da manhã e me faz chegar às 22h30 a casa, como me permite utilizar a hora de almoço para fazer um intervalo da investigação caseira a que me dedico, nos dias em que não estou na estrada. Não acredito muito em grandes almoços, cada vez mais o almoço se tornou num momento de pausa, ou um seguimento natural do trabalho para acabar assuntos que, por vezes, ficam por tratar nas infindáveis reuniões.
Gosto de utilizar a hora de almoço para ir às compras, ao supermercado, ao Ikea,à mercearia, à Baixa... Faço-o com a convicção que a maior parte das pessoas está a almoçar e que os que fazem como eu estão ocupados, não andam propriamente a passear entre os enfeites de Natal e as garrafas de Vodka! Muitas das minhas incursões do almoço acontecem no Ikea: uns copos aqui, uns individuais acolá, uns pés para uma mesa ali...
Há cerca de um mês este casal chamou-me a atenção: velhos (não encontro eufemismos para a idade avançada)à hora do almoço, no snack-bar do piso térreo a almoçarem: Ela um galão, ele um galão e um cachorro de 50 cêntimos. Já sabia que o Ikea se tem vindo a tornar numa espécie de cantina da classe média, mas desconhecia esta vertente de dar pão aos mais desfavorecidos. Porém, que nada na minha descrição vos leve a formar um esboço de uns velhos indigentes. Nada disso! Classe média baixa, mas lavados e até articulados... Arquivei o pensamento de que o casal devia ir lá muitas vezes e, claro está (nem vale a pena tentar esconder isto de quem me conhece) da vez seguinte que tive de visitar o Ikea, há duas semanas, passei primeiro pelo snack bar. Estava a velha na fila, enquanto o velho estava sentado, no que hoje sei ser a cadeira do costume, à espera do habitual...Fiz uma coisa à Auster (digo, sem imodéstia, pois quem conhece o autor e as histórias perceberá já a analogia): Pedi comida e sentei-me numa mesa perto deles para os ver melhor... Falavam de dinheiro e presentes: A velha irritou-se com o velho, mas depois acalmou-se... senti vergonha e, pressionada pelo tempo que não tinha para novelas, voltei para casa carregada da vida dos outros e de umas lâmpadas de baixo consumo. Ontem fui comprar uns pés para uma mesa mas, acima de tudo, fui visitar os meus velhos... Cheguei mais tarde do que é costume, já por volta do meio-dia e quarenta e eles lá estavam, na mesma mesa, quase a terminarem. A dado momento o velho abriu a carteira, onde vi um BI vitalício - que este casal, de certeza que não sonha com o cartão de cidadão- e deu 10 Euros à velha... Depois de almoçarem levantaram-se e sentaram-se num dos bancos de jardim que existem em frente à zona das caixas e ali ficaram, a fazer a digestão da magra refeição e a comentarem a vida... Não me sentei com eles pois prefiro imaginar o diálogo, que na minha cabeça se torna infinitamente mais interessante.
Se forem ao Ikea de Alfragide, entre as 12 e as 13 devem estar lá, no seu lugar de sempre... Se eu tivesse tempo, se fosse verdadeiramente uma personagem de um livro de Auster, estaria lá todos os dias e no dia que um deles, ou ambos, falhassem, ficaria mortificada de preocupação. O que me impede de o fazer é apenas o que me impede de apanhar um avião e de me deixar engolir pelo mundo. O que me impede de o fazer é o mesmo motivo que faz o casal sempre voltar... A vida é mais fácil com rotinas!Ficamos fechados na vida e acreditamos que se dermos sempre os mesmos passos, ou se corrermos muito em direcção ao mesmo sítio, distraímos a existência.
Se forem ao Ikea e virem os velhos, lembrem-se que são meus e do Auster, e digam-me como estavam!

9 de agosto de 2010

Silly Season

Como recomeçar ao fim de quase um ano? Já nem sabia da password, nem me lembrava da conta de e-mail...
Escrevo pois a medo, com alguma vergonha de voltar, até porque cada vez mais acredito que nada merece muito ser dito...And Yet...But Still...à boa maneira de Beckett digo ainda!
A silly season mexe comigo... Passo quase 9 meses à espera dela (não da silly, mais da season, do bom tempo, sobretudo este ano em que o inverno foi especialmente duro para quem vive de humores atmosféricos). A silly season é, por definição, sinónimo de férias, chinelos, roupa inaceitável, (mas que se tolera porque está calor e estamos na praia) enterros famosos,incêndios, futebol e festivais de Verão e já me habituei a ficar totalmente hipnotizada com o tempo de antena que é dado aos presidentes de juntas de freguesia, aos comandantes dos bombeiros e à população em geral... Mas, este ano, a silly season apanhou-me de surpresa ao ouvir sotaque da Guarda em prime time, sem ser no Jornal da TVi, mas num programa da RTP1, apresentado por uma ex-modelo que nem na TV de Lepe teria lugar, de tão má que é, mas que pelos vistos foi escolhida por duas razões: a)ser ex-modelo; b)saber dizer adeus em língua estrangeira!Sempre vi o Project Runway com a Heidi Klum e apenas posso declarar que o nossa versão não é Project Runway antes Project Runaway!

16 de outubro de 2009

30 de setembro de 2009

16 de junho de 2009