Happy Valentine’s Day ou Os Fantasmas de Valentins Passados


Faz
hoje 24 anos que comecei a trabalhar na Universidade de Évora! No
início ia de carro e tinha um quarto alugado, o chamado quarto da
criada, ao lado da cozinha, gelado e inóspito, em Invernos ainda sem
Alqueva, nem aquecimento global! Ao fim de uns meses, decidi alugar um
quarto na pensão Giraldo, que partilhava com colegas de Lisboa,
dependendo dos dias que tínhamos em comum! Depois da pensão e do quarto
ao lado da cozinha, já dormi em celas de seminários, em hotéis, hostels e
guesthouses!
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Carla Ferreira de Castro
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How did it feel?
How did it feel to leave the house, Tuesday morning, knowing you were going to be driven by a taxi, you so diligently rang for, to your death and to the unpredictable slaughter of a number of anonymous people?
Did you go to bed the night before? Did you set the alarm clock for a certain hour to get on time to yours and many others’ meeting with death?
How did it feel when you set the bomb, when you pressed the button, when you set the pace for stop being? Did you feel omnipotent, with a dash of nostalgia for leaving life undone, or did you just focus on the task of death ahead, instead?
How did it feel when you looked your fellow comrades in the eyes? Did you wave a silent goodbye before shouting the death prayer? Did you get the chance to browse around to check out your victims at the check in counter? Did you get to choose the best spot, to take the largest crowd you could?
In death you never know, you don’t want to know, except you did know and I keep wondering, in spite of faith, religion, revengeful thoughts, and beliefs, how did it feel to leave the house to die and kill, yesterday morning?
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Carla Ferreira de Castro
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O corte no ordenado... Já sabia há muito que ia ser menor, que ia ser um bocado grande mais pequeno (perdoem-me a contradição). Sempre que se trata de dinheiro, provavelmente por resquícios de uma infância em que a Matemática sempre fez sentido quando convertida em dados concretos - tens 10 chocolates e 3 amigos, o que fazes? - tenho tendência a converter o dinheiro no se poderia ter feito ou, neste caso, o que não vou fazer. Só quem não tem muito dinheiro consegue concretizar tão bem... Por isso é que os meus sonhos utópicos (porque não jogo) de ganhar o Euromilhões ficam sempre inacabados.., para o primeiro prémio. Será sempre mais fácil ganhar o 2º ou o 3º, ou mesmo o 4º prémio pois muito dinheiro acarreta responsabilidades pessoais e sociais maiores. Com muito dinheiro já não se ajuda somente a família e os amigos, existe a obrigação de ir mais longe e deve dar um trabalho dos diabos escolher uma causa boa, justa, livre e limpa!
Voltando ao ordenado: É menor, é como uma multa de excesso de velocidade que nos deixa a pensar: se eu tivesse passado mais devagar estaria agora 120 euros mais rica e até podia ter comprado aquele papel de parede extravagante com que ia forrar o WC! O problema é que, desta vez, recebo um corte salarial não por ter passado em excesso de velocidade, mas porque há muito que o país anda em excesso de despesa e optou pela via rápida de reduzir punindo os alvos mais a jeito: o belo funcionário público que no fim da conversa ainda remata: "ainda vamos tendo emprego é o que conta!" Pois para mim não conta!
Passei os últimos 18 anos a leccionar e a investigar, a apresentar as provas que me foram sendo solicitadas. Nunca subi na carreira docente por ter anos de serviço, mas por provas dadas. Aliás, ao contrário da maior parte dos funcionários públicos, eu e tantos outros como eu, continuamos sem ter o cargo assegurado - ainda este ano será, mais uma vez, reavaliada a minha relevância, após apreciação de um relatório de nomeação que talvez me vincule, não ao estado, à universidade onde trabalho há 18 anos, com excesso de horas lectivas, de alunos e de outros encargos burocráticos e com a pressão de ter de investigar e publicar pois tudo conta!
O corte no meu ordenado é dizerem-me "vá directamente para a prisão, sem passar pela casa partida!"
O corte no meu ordenado é uma forma de me dizerem que os 6 anos que investi no doutoramento me deram apenas 1 título, que agora se consegue em metade do tempo! Não tenho grandes hipóteses de progredir uma vez que as vagas são cada vez menores, pois o império das cotas impede a criação de novos concursos...
Fui uma aluna Erasmus, fiz uma licenciatura, um mestrado e um doutoramento pré-Bolonha e tudo isso me trouxe aos dias de hoje... ao corte orçamental que sofri. O que é que eu penso hoje, quando vejo o meu salário e o converto não em chocolates, mas em portagens, gasóleo e contas de casa de um agregado de 4 pessoas (dois adultos e duas crianças, em idade escolar)?
- Faz de conta que não fiz o doutoramento e que ainda sou assistente!
- Faz de conta que não tenho 156 alunos, múltiplas disciplinas diferentes anualmente, de primeiro e segundos ciclos e artigos para escrever, grupos de trabalho com projectos para apresentar, avaliações a que serei submetida...
- Faz de conta que está tudo bem!
Já não preciso de esperança, já só quero o sonho e talvez o esquecimento! Isso ou o 2º prémio do Euromilhões!Vai-me custar escrever este post, mas tem mesmo de ser, se eu não expulsar estas palavras da minha cabeça, vão continuar a assombrar-me de uma forma ainda mais permanente...
Tenho um trabalho, para o bem e para o mal, que tanto me obriga a levantar às 5h30 da manhã e me faz chegar às 22h30 a casa, como me permite utilizar a hora de almoço para fazer um intervalo da investigação caseira a que me dedico, nos dias em que não estou na estrada. Não acredito muito em grandes almoços, cada vez mais o almoço se tornou num momento de pausa, ou um seguimento natural do trabalho para acabar assuntos que, por vezes, ficam por tratar nas infindáveis reuniões.
Gosto de utilizar a hora de almoço para ir às compras, ao supermercado, ao Ikea,à mercearia, à Baixa... Faço-o com a convicção que a maior parte das pessoas está a almoçar e que os que fazem como eu estão ocupados, não andam propriamente a passear entre os enfeites de Natal e as garrafas de Vodka! Muitas das minhas incursões do almoço acontecem no Ikea: uns copos aqui, uns individuais acolá, uns pés para uma mesa ali...
Há cerca de um mês este casal chamou-me a atenção: velhos (não encontro eufemismos para a idade avançada)à hora do almoço, no snack-bar do piso térreo a almoçarem: Ela um galão, ele um galão e um cachorro de 50 cêntimos. Já sabia que o Ikea se tem vindo a tornar numa espécie de cantina da classe média, mas desconhecia esta vertente de dar pão aos mais desfavorecidos. Porém, que nada na minha descrição vos leve a formar um esboço de uns velhos indigentes. Nada disso! Classe média baixa, mas lavados e até articulados... Arquivei o pensamento de que o casal devia ir lá muitas vezes e, claro está (nem vale a pena tentar esconder isto de quem me conhece) da vez seguinte que tive de visitar o Ikea, há duas semanas, passei primeiro pelo snack bar. Estava a velha na fila, enquanto o velho estava sentado, no que hoje sei ser a cadeira do costume, à espera do habitual...Fiz uma coisa à Auster (digo, sem imodéstia, pois quem conhece o autor e as histórias perceberá já a analogia): Pedi comida e sentei-me numa mesa perto deles para os ver melhor... Falavam de dinheiro e presentes: A velha irritou-se com o velho, mas depois acalmou-se... senti vergonha e, pressionada pelo tempo que não tinha para novelas, voltei para casa carregada da vida dos outros e de umas lâmpadas de baixo consumo. Ontem fui comprar uns pés para uma mesa mas, acima de tudo, fui visitar os meus velhos... Cheguei mais tarde do que é costume, já por volta do meio-dia e quarenta e eles lá estavam, na mesma mesa, quase a terminarem. A dado momento o velho abriu a carteira, onde vi um BI vitalício - que este casal, de certeza que não sonha com o cartão de cidadão- e deu 10 Euros à velha... Depois de almoçarem levantaram-se e sentaram-se num dos bancos de jardim que existem em frente à zona das caixas e ali ficaram, a fazer a digestão da magra refeição e a comentarem a vida... Não me sentei com eles pois prefiro imaginar o diálogo, que na minha cabeça se torna infinitamente mais interessante.
Se forem ao Ikea de Alfragide, entre as 12 e as 13 devem estar lá, no seu lugar de sempre... Se eu tivesse tempo, se fosse verdadeiramente uma personagem de um livro de Auster, estaria lá todos os dias e no dia que um deles, ou ambos, falhassem, ficaria mortificada de preocupação. O que me impede de o fazer é apenas o que me impede de apanhar um avião e de me deixar engolir pelo mundo. O que me impede de o fazer é o mesmo motivo que faz o casal sempre voltar... A vida é mais fácil com rotinas!Ficamos fechados na vida e acreditamos que se dermos sempre os mesmos passos, ou se corrermos muito em direcção ao mesmo sítio, distraímos a existência.
Se forem ao Ikea e virem os velhos, lembrem-se que são meus e do Auster, e digam-me como estavam!
Como recomeçar ao fim de quase um ano? Já nem sabia da password, nem me lembrava da conta de e-mail...
Escrevo pois a medo, com alguma vergonha de voltar, até porque cada vez mais acredito que nada merece muito ser dito...And Yet...But Still...à boa maneira de Beckett digo ainda!
A silly season mexe comigo... Passo quase 9 meses à espera dela (não da silly, mais da season, do bom tempo, sobretudo este ano em que o inverno foi especialmente duro para quem vive de humores atmosféricos). A silly season é, por definição, sinónimo de férias, chinelos, roupa inaceitável, (mas que se tolera porque está calor e estamos na praia) enterros famosos,incêndios, futebol e festivais de Verão e já me habituei a ficar totalmente hipnotizada com o tempo de antena que é dado aos presidentes de juntas de freguesia, aos comandantes dos bombeiros e à população em geral... Mas, este ano, a silly season apanhou-me de surpresa ao ouvir sotaque da Guarda em prime time, sem ser no Jornal da TVi, mas num programa da RTP1, apresentado por uma ex-modelo que nem na TV de Lepe teria lugar, de tão má que é, mas que pelos vistos foi escolhida por duas razões: a)ser ex-modelo; b)saber dizer adeus em língua estrangeira!Sempre vi o Project Runway com a Heidi Klum e apenas posso declarar que o nossa versão não é Project Runway antes Project Runaway!
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Carla Ferreira de Castro
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Carla Ferreira de Castro
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